Uma apaixonada por encadernação e Restauro


Clovis Bevilaqua – Theoria Geral do Direito Civil

Um clássico do mundo jurídico:

Esse livro me foi apresentado como “o destruído”.
A capa, de couro, estava se desfazendo, e o papel estava desgastado.

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Mas o livro em si estava em excelente estado. As únicas marcas eram as do tempo, que escureceu levemente o papel.

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Pois bem. Soltei a capa antiga, higienizei, e usei o processo da caixa para umidificar o papel. Como apenas as bordas estavam ressecando, foi rápido.

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E refiz a capa em couro e papel marmorizado.

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Pronto!

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Il Talismano della Felicitá

Hoje é dia da linda e querida Renata dar as caras, as cartas e as receitas!! Logo menos vocês verão o livro dela 🙂

“Ai, a comida da minha avó!” Como eram bons os almoços de domingo na casa dos meus avos. A comida da avó tem sempre aquele temperinho especial, e o melhor, é que a minha avó sempre fazia questão de preparar para os netos seus pratos prediletos.Il Talismano Della Felicitá
Posso dizer que no meu caso, esses pratos prediletos eram tantos, desde o mais simples macarrao com molho de tomate (que me lembro borbulhando no fogão por horas!) até os doces que derretiam na boca.
O “talismano della felicita” é para mim uma das mais preciosas heranças que minha avó me deixou. Nele encontro hoje não somente os sabores da minha infância, mas um pouquinho da historia da Italia, um país que se tornou a minha pátria e onde agora construo a minha familia.
Na epoca do lançamento do livro, nossas nonnas, bisnonnas (italianas) viviam em uma época de conflitos, entre guerras, onde as mulheres deviam se virar com aquilo que tinham. Elas se tornaram mães em pleno pós guerra, onde a qualquer um era garantida uma chance, mas infelizmente não se voce fosse uma mulher. Elas sentiram imediatamente na pele o que significava estar ligada à cozinha, e transformaram esse elo em meios de expressão únicos, excepcionais. A cozinha foi para elas o verdadeiro talismã da felicidade.
O “talismano della Felicità” teve sua primeira edição lançada em 1929, como uma coletânea de receitas publicadas pela “tia” Ada Boni desde 1915. Provavelmente o primeiro manual de cozinha na língua italiana endereçado às esposas e às jovens e inexperientes mulheres modernas, que apenas saíam de casa ao se casarem, e que na maioria das vezes nao sabiam cozinhar nem se quer um ovo.
Ada Boni considerava a mulher moderna aquela que tinha como dever saber “se virar”, sem depender de empregadas ou de qualquer ajuda externa. Foi dedicado às mulheres que muitas vezes sabiam falar varias línguas, tocar instrumentos, se portar em sociedade, eram instruídas e tinham título superior, porém, não sabiam cozinhar o básico.
Ada, como a maioria dos italianos, tem a intrínseca convicção e acredita que para se alcançar a verdadeira felicidade, a alimentaçao, uma parte essencial do dia a dia, não pode ser negligenciada. Uma afirmação que na minha opinião é ainda muito atual. Basta vermos as tendências atuais de slow food, produtos orgânicos e locais, e até mesmo os realities de cozinha que nos bombardeiam todos os dias na tv.
O livro era um convite às mulheres a pensar e dedicarem-se à cozinha e à casa como um dever prazeroso e gratificante, já que as tarefas domésticas estavam se tornando uma necessidade até mesmo para as classes sociais mais elevadas. A arte de cozinhar era uma virtude, acima de tudo, a maneira mais eficaz para realizar com sucesso a principal tarefa da mulher desse tempo, que era cuidar da família, marido e filhos.
É considerado um dos principais livros de receita italiano, um pedaço da historia gastronômica italiana. Houve um grande sucesso por um século inteiro, sendo o livro de cozinha mais vendido no pais, e ainda nos dias de hoje é considerado um classico presente de casamento a noivas, com uma maior concentraçao na primavera, que é a estaçao dos casamentos na Italia (Europa).
O Talismano della Felicità faz parte do elenco dos 150 pricipais livros que marcaram e contaram a historia italiana. É um livro que atravessou gerações de mulheres.

Capa 2013
Capa 2013

1989
Capa 1989

1984
Capa 1984

Curiosidades:
1. Hoje em dia na sua capa tem o retrato do “Mangiafagioli” (O comedor de feijão) do pintor Annibale Caracci.
2. A primeira ediçao do livro continha 600 receitas, a ultima, ediçao atual dividida em 3 volumes, contem 2139 receitas.
3. O livro contem principalmente receitas italianas, mas também muitas internacionais.
4. A autora durante a explicaçao das receitas intervem freqüentemente com comentarios pessoais e conselhos uteis, praticos. Ela usa uma linguagem calorosa e simpática que mostra seu desejo de dividir todos seus segredos culinarios com as “amigas”.
5. A carbonara, um prato hoje em dia muito popular e conhecido mundialmente não faz parte do livro, oque nos leva a crer, que essa receita que originalmente leva ovos, guanciale (bacon feito das bochechas do porco), queijo pecorino e piementa do reino, foi inventada somente após a segunda guerra mundial.
6. Ada ensina que dona da casa, “patroa” não deve nunca ceder seu lugar na ponta da mesa, em excessao ao “principe”da casa (aquele que tem maior poder) ou ao “principe” da igreja (cardinal).
7. Com o passar do tempo Ada teve que mudar a frase: “fate portare in tavola” (Faça servir a mesa) para “portate in tavola” (Sirva a mesa).
8. O livro era organizado de acordo com a ordem habitual de uma moderna refeiçao italiana:
Antipasti: Aperitivos, entradas
Primi piatti: Pastas, paes, arroz
Secondi Piatti: Carne, aves, peixes e frutos do mar,
Insalate: Saladas
Dolce: Dolces, Tortas, bolos, etc.

Divido uma das receitas do livro. Uma das preferidas do meu marido, fácil e rápida de fazer.

Spaghetti al tonno di Ada Boni
Espagueti ao atum
Ingredientes para 6 pessoas
600 gr espagueti
3 anchovas (em óleo)
200 gr atum em óleo de otima qualidade
meio copo de azeite
alho
1 kg tomates
orégano
sal
pimenta do reino

Instruções
Coloque o óleo em uma panela com um dente de alho, que deve ser removido assim que o óleo é aquecido. Em seguida, adicione as anchovas lavadas, desossadas e cortadas em pedaços pequenos e, assim que dourar levemente adicionar os tomates lavados, descascados, e cortados em pedaços pequenos.
Após cerca de 20 minutos, quando o molho é engrossado o suficiente, adicionar o atum triturado na panela.
Tempere com um pouco de sal, bastante pimenta e uma pitada de orégano, e continue a cozinhar por alguns minutos.
Coloque para cozinhar o macarrão em bastante água fervente com sal.
Quando cozidos, escorra, misture com o molho.
Buon appetito!

Não se pode pensar bem, amar bem, dormir bem, quando não se jantou bem.

Virginia Woolf

One cannot think well, love well, sleep well, if one has not dined well.


[off-topic] Música durante o trabalho

Enquanto estou trabalhando com livros, não posso, ou melhor, não gosto de ter tv ligada.
Com o tempo, percebi que rádio ligado também não me ajudava, pois eu ficava dependente do relógio para ter noção do tempo – sim, eu preciso por despertador para interromper o trabalho e ir cuidar da minha vida. Sim, eu gosto tanto assim de restaurar livros e não percebo a passagem das horas.

Pois bem, eu resolvi selecionar canais específicos do you tube, para ouvir música ou palestras. Com isso, eu tenho, normalmente, ente 30 a 90 minutos de contagem de tempo E música ou informação importante.

Este final de semana estive por conta dos clássicos.
Aqui tem o link para o Poema de Schiller em alemão e em inglês, para os que tiverem curiosidade.


Biblioteca na Praia

Ahn, o verão….
Sol, calor, praia, férias, descanso, preguiça…

E areia, umidade, maresia.

Papeis, vocês sabem, não aguentam desaforo.

Se o livro novo que vai para a beira da piscina ou para a esteira de praia volta empenado (por menos que seja, aquela estragadinha que ignoramos porque o prazer da leitura é maior), imaginem como não fica um livro guardado por meses, ou anos, nesse tipo de ambiente?

Pois bem… Estava eu, indo para o guarda sol a praia em mais uma tentativa desesperada de melhorar a aparência de quem vive trancada no escritório curtir um sol, preguiça e meu livro, quando olho para cima:

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Acredito que apenas um aficcionado por livros (eu!) seria capaz de, tendo diante de si o litoral brasileiro, perceber que, no andar de cima, havia uma biblioteca.

Pois é…

Eu vi….

Esqueci que estava em Ilhabela e fui atrás dos livros…

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Foi mais forte que eu…

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Sabem o que eu amei? O fato de terem guardado os livros em um ambiente controlado (na medida do possível): pelo que vi, TODOS os livros foram lidos, manuseados, e então guardados. Nenhum estava gravemente estragado.

É verdade, o local é amplamente iluminado, mas sem sol direto nem umidade aparente.

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A porta de vidro, se soubermos usar, ajuda na preservação dos livros. Desde que mantidos secos, (mas não tive acesso aos livros, então não sei como ocorre troca de ar nem controle se variação de umidade e temperatura), os volumes estão protegidos de incidência direta de maresia.

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quando eu puder comprar uma câmera que comporte polarizador na lente, as primeiras fotos serão para o blog, prometo!

Sabem, eu fiquei eufórica com o cuidado.

Centenas de livros ali, ao alcance do dono e de quem os proprietários quiserem compartilhar, limpos, secos, acondicionados dentro de um tipo de armário que qualquer pessoa, em se programando, pode ter.

Ahn! Se me acham maluca por esquecer a praia por conta de livros, a vista da janela da biblioteca é essa, ó:

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Anna e Ana: meu abraço e muito obrigada!


Conservação de documentos

Quando eu me deparei com um livro que já havia sido restaurado, e após uma interessante conversa sobre a história daquele exemplar naquela família, posterior análise e pesquisa, que confirmou a possibilidade de mínima intervenção, a escolha e autorização do proprietário foi pela conservação.

O ideal é conservar, para não precisar restaurar. E restaurar para manter o livro ou documento.

Isso é tão importante, que encontramos uma infinidade de artigos e vídeos online sobre o assunto confirmando a preocupação com cuidado e conservação de livros e papéis.

O vídeo abaixo, feito pelo departamento de Memória dos arquivos do Estado de Illinois, EUA, é bastante didático e traz dicas de como cuidar de seus documentos com o que você tem em casa.

legendas em inglês


As Pupillas do Senhor Reitor – preservação

Hoje eu vou mostrar detalhes de um restauro feito antes de 1951:

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Este livro deve ter sido restaurado em algum momento entre 1940 e 1950.
Considerando o estado de conservação que se encontrava, apresentei as opções: preservar ou restaurar.
Fazei sobre a opção de refazer o livro, correndo o risco de danificar alguma parte do original, já que não sei qual material foi usado, e apresentei a opção de leves reparos, com foco na preservação. Foi escolhido preservar, para não precisar restaurar.

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meu olhar crítico não gostou de ver que, para fazer a capa, foi utilizada página de outro livro.

O Mundo em 1940-50 não tinha a variedade de materiais que encontramos hoje. E ainda que a técnica identificada neste volume não seja diferente da que se vê hoje em dia, o material que utilizamos mudou. O cuidado com a matéria prima continua o mesmo, porém é possível isolar e melhorar o preparo do papel japonês e da cola, por exemplo.

Infelizmente o tempo e (não tenho certeza) o material utilizados não foram muito generosos com o livro, que 70 ou 80 anos depois chegou às minhas mãos:

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conseguem ver o enxerto de papel?

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Há um ex libiris identificando o profissional, mas estou há semanas buscando referências, para identificar o método e materiais utilizados, e não encontro nada que eu possa associar,com toda a certeza, ao profissional do ex libiris.

As páginas do livro estavam ressecadas e sujas, e como o papel utilizado para refazer as brochuras tinha uma característica e gramatura distintas do original, o papel foi se “quebrando”.

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Para interromper, e quiçá reverter o processo, submeti o miolo do livro a um leve processo de umectação, que deu certo e agora, o livro pode ser manuseado sem que as páginas se quebrem.

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Usando cola reversível e papel alcalino, fiz uma sanfoninha (triângulo de papel, que ao ser colado na capa, permite que está não se quebre) e colei a parte solta da capa, mas somente após as páginas do miolo estarem novamente maleáveis e desempenadas.

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Bocas do Tempo

Recentemente comprei este volume, que tinha umas “rebarbas”.

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Simples e rápido:
Identifiquei as páginas, desamassei o papel e usei o bisturi para cortar o excesso de papel.

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Pronto!


[off-topic] HitRecord on TV!

Amo-adoro projetos colaborativos!

Amo-adoro me perder buscando novidades (ok, este nem é novidade)!

Amo-adoro o sorriso e os olhos do Joseph Gordon-Levitt!

Amo-adoro histórias de “primeiro whaterver”!

Chega de enrolação:
Episódio um (em inglês) do HitRecord on TV


[off-topic] Stanley Kubrick

Eu sempre vejo os livros, cadernos, blocos de notas e folhas soltas, aonde quer que eu esteja.

Hoje passeei por cenários. E por livros.
Pessoas que transformaram livros sensacionais em filmes (insira aqui sua opinião).

Fiquei louca de vontade para ver se havia algum tratamento especial nesta folha de papel, e qual seria.
Pensei em uma infinidade de possibilidades que o mantivesse neste exato formato, sem ceder, sem dobrar, mas também sem fazer com que a tinta borrasse ou desbotasse, sem conflito com a acidez e a gramatura da página.

20140108-002724.jpgO Iluminado

E haja pesquisa, para adequar o filme à realidade objeto do filme:
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Barry Lyndon

A grande maioria dos scripts eram (e continuam sendo) pilhas encadernadas de textos comentados. Na contramão do uso de cadernetas tamanho A6, também acho que processo criativo e execução de um projeto precisa e deve ser espalhado e manuseável.

20140108-004706.jpgGlória feita de Sangue

Apesar de não ter à mão uma câmera pro, eu vou insistir e mostrar os scripts de “O Iluminado” encadernados, bonitinhos:

20140108-004830.jpgO Iluminado

Não vou mostrar tudo o que vi de livros e manuscritos. Não vou citar o trabalho feito pelo Kubrick.
Eu me senti dentro de uma maquete gigante, e então, me perdi 🙂


O Hobbit – animação de 1966

Uma revista brasileira divulgou recentemente um vídeo de 12 minutos de uma versão não muito ortodoxa d’O Hobbit, de 1966

Sobre o vídeo em si, clicando aqui você será direcionado para o post (em inglês) onde Gene Deitch conta sobre o trabalho que fez, junto com William L. Snyder (Bill Snyder) , além de citar a ajuda que teve do artista, pintor e diretor Jiří Trnka, e do também ilustrador Adolf Born.

(Como eu conheço todos os nomes acima? “Não faz pergunta difícil”. Eu navego bem pela net, vai ver, é por isso..)

Resumindo o post do link acima mencionado, Deitch precisou de 45 anos para divulgar abertamente seu vídeo.

O curioso foi perceber, enquanto assistia, que tal versão acordou uma memória de infância.
Hoje, no mesmo estilo da arte, posso citar a animação Mansão Foster para Amigos Imaginários.

Pois é. Eu cresci familiarizada com as ilustrações de Adolf Born. O video foi uma deliciosa viagem no tempo. Vou além: eu realmente pensava, enquanto criança, que “o filme dos seres pequenos, mas que não eram anões” era mais um conto de fadas.
E isso não interfere na minha paixão pela obra de Tolkien, pelo contrário. Na adolescência, ao ler O Senhor dos Anéis, eu pude redescobrir um mundo. Sim, eu adoro releituras!

Fui criança nos anos 80, e mesmo sem TV a cabo e seus canais do mundo, nem streaming de programação infantil, meus pais sempre davam um jeito de me mostrar que a produção de ideias, estilo, arte, estética, cadência das histórias, objetivos e desafios variam (obviamente, direcionado à educação e formação de caráter de uma criança).

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