Uma apaixonada por encadernação e Restauro


Livros novos!

Não importa se a fabricação é artesanal, sob demanda ou industrial, é sempre possível identificar um livro “novo”.

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Afinal, livro lido e relido fica com aspecto bem diferente:

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Mas e antes? E quando a impressão industrial de livros não aparava as páginas?

Um livro novo era identificado por não ter todas as suas páginas soltas:

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E depois de lidos, com todas as suas páginas separadas, os livros ficavam assim:

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Como comecei a restaurar?

Pergunta comum, tanto aqui no blog, quanto entre meus conhecidos e amigos.

Eu sempre gostei de ler. Antes de ser alfabetizada, eu olhava para as frases escritas e decorava as histórias que me liam, para poder acompanhar as páginas na cadência do conteúdo.

Conseguem imaginar minha euforia ao ser alfabetizada???

Então eu descobri Érico Verissimo.
Não me refiro a qualquer livro, mas aO Tempo e o Vento.
Vejam o que aconteceu:

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Foi por ter estragado estes livros que resolvi aprender a restaurar.

Fui dar com meus costados na ABER. Infelizmente, a agenda dos cursos era incompatível com a faculdade que eu cursava à época.

“Ok” pensei “deve haver alguma opção. Talvez alguém possa me aceitar como aprendiz”.
Na biblioteca da faculdade me disseram que enviavam os livros a um profissional específico, de quem nunca obtive resposta.
Então fui passear pelos sebos de São Paulo, perguntando como eles cuidavam dos livros que precisavam ser restaurados, e me ofereci para trabalhar em troca de me ensinarem a restaurar. A resposta era sempre “não sei” ou “não estamos contratando”.

[e dá-lhe busca de informações na internet discada]

Entre 2000 e 2001 entrei no sebo Vecchio Libro, então uma loja física na zona Oeste da cidade.
Eles estavam organizando um curso!!!

Deixei meu contato, incrédula depois de ouvir tantos “não”, e para minha imensa alegria, recebi um telefonema tempos depois “oi, continua interessada?” “SIM!!!!!”
(Beijo, Ísis! Beijo, Carlos!)

Os módulos seriam aos finais de semana, nas tardes de sábado.
Só que a grana era um problema.

Procura daqui, faz conta dali, encestava quase desistindo quando minha avó entrou na jogada: “vá fazer as aulas, eu pago o curso”.
Nem pensei duas vezes e aceitei. Por ocasião das festas daquele final de ano, pude entregar, restaurado, um livro dela 😊

Essa avó nos deixou há poucos dias, então este post é minha história, na esperança de ajudar quem quer começar a restaurar, e o meu MUITO OBRIGADA à minha avó, pelo legado do aprendizado.


Portrait of a small boy reading*

Cute 😊
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*encontrei navegando pela web


“Emprestei, e nunca mais vi”

Durante todos os anos de restauração e encadernação de livros, há uma frase que sempre ouço:
“Eu tinha tal livro, mas perdi. Ou melhor, emprestei, e nunca mais vi”

Não é seu? Devolva! Simples assim.

Meu irmão empresta seus livros, mas cobra a devolução.

Meu pai se interessou pelo que me viu ler nas ultimas semanas. Como não era meu, expliquei que iria perguntar a quem me emprestou se tudo bem. Meu pai não apenas recusou minha proposta de ler livro que me fora emprestado, como, no final da semana seguinte, estava com uma edição de bolso da mesma obra (oba!!!)

Eu e os colegas de uma das empresas aonde trabalhei emprestávamos livros uns para os outros. Como a escolha de gênero era parecida, os cafés muitas vezes começavam com comentários sobre as leituras compartilhadas.

Tenho amigos que moram longe (viva a internet!!!), e rola uma ida e volta de livros que é deliciosa!

Perdeu o contato?
Deixe na caixa de correios da pessoa.

Esqueceu e lembrou anos depois?
Diga “olha, estava comigo!” e devolva.

Saiu da escola e levou sem querer livro da biblioteca?
Entregue na portaria.

E, não menos importante:
Perdeu, tomou chuva, cachorro comeu? Tudo bem, explique o que aconteceu e ofereça um novo exemplar junto com o antigo (estamos falando de edições sem valor emocional, certo?)

Você não precisa se explicar, nem precisa arranjar uma desculpa para devolver.


Economia de Guerra

Tive a oportunidade de ajudar a higienizar uma pequena biblioteca.*
Os livros estão todos em ótimo estado de conservação. Um ou outro, apenas, está com marcas de manuseio e uso, mas no geral, foi um prazer!

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São livros impressos durante a 2ª Guerra Mundial, cujas brochuras variam de tamanho, podendo ser entre o A5 e o que cabe no bolso traseiro de uma calça jeans tradicional!

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Acima, a águia dos correios dos Estados Unidos: “Livros são armas na guerra das idéias” **

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Abaixo, na ultima página do terceiro volume de outra coletânea:

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Este foi impresso em Lisboa logo após o término da 2ª Guerra.

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Propaganda de guerra: “envie este volume a um rapaz nas forças armadas em qualquer lugar nos EUA por apenas 4 centavos de Dólar”**

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E vejam abaixo a preocupação com o uso consciente de matéria prima e o pedido para o melhor endereçamento de papéis:

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*Divulgação autorizada pelo proprietário.
**Livre tradução.


Giz de Cera

Projeto do dia: encadernação!

O objetivo é consolidar anotações e sketches em livro portátil e resistente, uma via física de portfólio e índice de técnicas, como solicitado.

Estas belezinhas são a companhia da tarde de hoje:

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Espresso Book Machine

Existe um aplicativo bacanérrimo para tablets chamado 53. Uma das opções é a impressão dos seus rascunhos, artes, anotações como um Moleskine.

Esta possibilidade de ter suas criações feitas no formato e qualidade que todos nós amamos é um sonho (e um nicho de mercado que nunca entendi porque não havia sido explorado em larga escala até então), e me lembrei desta máquina, sobre a qual li no Pequenas Empregos, Grandes Negócios há pouco mais de um ano:

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“A empresa americana On Demand Books criou uma nova forma para consumidores comprarem livros. A Espresso Book Machine é uma impressora que produz livros sob demanda, na hora.

A máquina já está disponível em mais de 70 bibliotecas e livrarias em diversos países (mas não no Brasil) e produz cópias de obras de um sistema on-line com mais de 8 milhões de títulos. Assim que o usuário escolhe a obra, os royalties são transferidos para o autor do livro.

A empresa espera com essa impressora estimular também a divulgação de novos autores e suas obras. Confira um vídeo que mostra todo o processo de produção da máquina (em inglês): ”

E


Vida de San Ignacio

Uma das coisas bacanas que acompanha a restauração de livros são os proprietários contando porque aquele volume é importante.

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Este livro está relacionado a uma peregrinação de centenas de km a pé até Santiago de Compostela, na Espanha.
Conseguem imaginar a experiência sendo descrita por um executivo de alta performance durante um café, anos depois? Foi gratificante.

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Pois bem, limpei e higienizei o livro.
Tingi o papel japonês (maleável e resistente, utilizado na restauração de papel danificado) para minimizar o efeito da restauração, refiz as brochuras, costurei o livro e prensei:

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A capa estava parcialmente conservada, mas não era possível utilizá-la sem uma base. Eu precisava de algo para mantê-la una, firme e protegendo o livro.
A escolha foi percalux azul marinho sobre papel acartonado, sem arredondar a lombada, mantendo o formato original do livro.

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O Corpo Fala

Recebi um exemplar “lido e relido pela família inteira”, como disse o proprietário.

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Vejam como estavam as páginas:

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A missão foi refazer o livro:

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A capa estava em bom estado de conservação, então apenas higienizei, limpei a cola e aproveitei o material tal como o recebi (dá para ver os cantinhos com fita adesiva?).
Quanto mais próximo do estado original do livro, mais eu gosto!

É um caso de encadernação de folhas soltas. Como já havia uma furacão em alguns grupos de páginas, mantive o padrão que encontrei.
O resultado foi este:

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A Ceia dos Cardeais

Me emprestaram um belíssimo volume d’A Ceia dos Cardeais para ler, e como a capa estava solta, perguntei se poderia arrumar antes de devolvê-lo.

Impressa em 1950, com belas e significativas ilustrações, foi comprado já com as manchas, mas o papel e a impressão estavam em ótimo estado de conservação.

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Limpei a cola

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E refiz os cadernos:

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E esqueci de fotografar o livro depois de pronto (risos).

A peça, tal como escrita, é uma gracinha.
O esporte de hoje é encontrar o vídeo da interpretação por Raul Cortez.


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